5 de dezembro de 2010

Os negros e a Igreja


Por  Pe. Ari Antônio Reis e Pe Jurandir Azevedo Araújo

Escrever sobre os afro-brasileiros presentes na Igreja implica em fazer a recordação da história dos negros do Brasil. Esta é a razão da memória antes mencionada.
A sociedade que fez a opção econômica pelo escravagismo buscou um sólido conjunto de justificativas para tal orientação. As justificativas da escravidão, de origem filosófica, biológica e até mesmo teológica, geraram uma orientação preconceituosa e discriminatória em relação à cultura dos povos oriundos da África.
A Igreja encontrou dificuldades em apontar um outro caminho. O projeto colonial embasado na economia escravagista foi hegemônico. Não teria durado três séculos se tivesse enfrentado uma resistência mais consistente. A Igreja não o questionou de uma forma incisiva e em diversas situações compactuou com a escravidão. Um exemplo desta dificuldade: ainda hoje há poucas vocações sacerdotais e religiosas oriundas da cultura afro-brasileira. Há uma causa histórica para esta dificuldade. Não há como negar certo estranhamento entre os afro-brasileiros e a Igreja, mesmo que os negros tenham sido os primeiros batizados do continente latino-americano e do Brasil .
Entretanto, se percebe, no passado e hoje, muitas iniciativas de apoio, reconhecimento e solidariedade à caminhada dos negros em terras brasileiras. Tais iniciativas estão em sintonia com compromisso do missionário Pedro Claver, o santo que se fez negro no meio dos negros. O próprio Zumbi dos Palmares foi acolhido por um padre que o educou até a juventude. Os Franciscanos do Rio de Janeiro acolhiam escravos idosos impossibilitados de trabalhar. Ao menos tinham uma morte digna. Muitos bispos e padres, ao seu modo, procuraram ajudar os negros e negras escravizados. Vê-se que Igreja procurou arrefecer, mesmo sem o questionar de forma incisiva, o impacto do projeto escravagista sobre os negros. As iniciativas de apoio aos negros foram constantes.
No século passado a Conferência de Puebla (1979) sugeria à Igreja o compromisso para com os negros, pois ali era visto também o rosto de Cristo sofredor. A Conferência de Santo Domingo (1992), com atenção especial voltada às culturas presentes no Continente Latino Americano, dedicou atenção à situação dos afro-americanos. O documento Ecclesia in América também reforça o compromisso para com os afro-americanos e sugere o desafio da formação de agentes de pastoral competentes capazes de fazer uso de métodos já legitimamente inculturados na catequese e na liturgia. Tal orientação também faz referência aos povos indígenas.
Com o dizia o profeta Isaías (Is11, 1s), há um broto nascendo e que nos faz acreditar na vida. No caso dos afro-brasileiros existiram muitos brotos. Estes brotos, porque cuidados e amados, geraram plantas, projetos, deram um aporte para a cidadania civil e eclesial reivindicadas pelos negros. As Conferências de Medellín em 1968, Puebla em 1979, Santo Domingo em 1992 e mais recentemente Aparecida, aconteceram pelo sopro do Espírito, iluminaram o compromisso efetivo da Igreja como o povo latino americano. Este compromisso foi assumido também em relação ao povo negro e permanece no horizonte evangelizador da Igreja. Era o alimento necessário para os brotos que surgiam, a renovação diversa e ampla como inspirou o Espírito Santo (At 2, 1ss).
A Campanha da Fraternidade de 1988 foi um referencial importante nesta caminhada. Respondeu aos anseios da comunidade negra católica e significou uma nova forma de relação. Viu-se que nas comunidades havia uma presença significativa da população negra. Muitos agentes de pastoral e lideranças diversas eram descendentes de africanos. Para isto fazia-se necessário o despojamento dos preconceitos e atitudes discriminatórias que também estavam nas lideranças, nos padres, nos religiosos e religiosas. O convite à conversão feito por João Batista à população da Palestina (Mt 3,2) foi feito também pelos negros à Igreja Católica nas suas diferentes comunidades. No caso, a conversão implica no reconhecimento da alteridade, a presença diferente, não menos cristã e comprometida com o Reino, apenas diferente.
Ainda hoje colhemos os frutos deste “ano da graça” para a Igreja e para o povo negro. Permanece o desafio de continuar a abertura à cultura e a riqueza do povo negro. Uma abertura que fará da Igreja mais plural e mais profética, pois é companheira na luta pela cidadania plena. A Igreja, desde seus primórdios, não é formada por uma só cultura, é pluri-etnica. É sempre desafiada a enriquecer-se, mais ainda, acolhendo os dons e a riqueza da cultura afro-brasileira. Convoca seus membros a estar a serviço do povo de Deus, em comunhão com toda a humanidade, sem exclusão, buscando a libertação, à caminho do Reino definitivo.
Em comunhão com a missão da Igreja no Brasil os afro-brasileiros assumem as Diretrizes e as Linhas de Ação, contribuindo com a ação evangelizadora na inculturação do Evangelho. Cremos na presença do Espírito Santo, protagonista primordial da evangelização. O sopro divino abre caminho neste projeto justo e necessário.
A Igreja no Brasil, a partir de uma releitura histórica e profética assume um compromisso alvissareiro: “promover os valores culturais do povo afro-brasileiro e a sua religiosidade, respeitando a sua forma de ser e agir”.

Fonte:
Pe. Ari Antônio Reis; Pe Jurandir Azevedo Araújo.   A caminhada da Pastoral afro-brasileira.  Disponível em:<http://cenpah.blogspot.com/2009/10/
Caminhada-da-pastoral-afro-brasileira_07.html>. Acesso em: 25 de Novembro de 2010

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