19 de janeiro de 2011

As vítimas da violência têm idade, classe social e cor



  “Como poderiam os oprimidos dar início à violência, se eles são o resultado de uma violência anterior?”, questiona Paulo Freire. Surpreendentemente, a juventude é encarada como protagonista da violência no país. A inversão dos fatos assombra, sendo que, na maioria das vezes, ela é o oposto: a grande vítima das violências.


     Para além da violência física cometida pelos governos repressivos, o racismo, o machismo, a homofobia e a discriminação com a juventude são expressões da violência psicológica contra as ditas minorias sociais, os principais alvos da segregação social: mulheres, negros, indígenas, homossexuais, empobrecidos e jovens.


“Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado”


     A nossa história está marcada pela violência contra os mais fracos. Por isso ainda reflete o extermínio. Ela se inicia com o massacre de índios, com a exploração da mulher pelo homem, com a escravidão dos negros, concebidos como coisa, não gente.


     Segundo o Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros - 2008, entre 1996 e 2006 o índice de homicídios na população jovem teve um aumento de 31,3%, enquanto na população total foi de 20%.


     A pobreza tem cor, e no Brasil ela é negra. Os negros apresentam um índice de vitimização 73,1% superior aos brancos na população total e 85,3% superior na juventude.


     A violência contra os povos indígenas, ocorrida entre os anos de 2006 e 2007, aumentou mais de 60%, sendo a maioria jovens. A falta de demarcação das terras indígenas continua a ser o principal problema gerador de conflitos.


     Sete milhões de jovens brasileiros, o dobro da população do Uruguai, não trabalham nem estudam. Se verificarmos a faixa etária nos presídios brasileiros, como afirma a Pastoral Carcerária, vamos constatar que os presos são, em geral, jovens, pobres, analfabetos e negros. A CNBB, no Texto-Base da Campanha da Fraternidade de 2009, alerta-nos para as injustiças geradas ao associar pobreza à violência. Vemos que ela se manifesta em todas as camadas sociais, embora seja a classe pobre a que mais sofre discriminação, sobretudo os jovens que, muitas vezes, são rotulados como delinquentes, excluídos e marginalizados.


Extermínio da juventude


     Os jovens estão sendo exterminados dentro e fora dos presídios. Só no Distrito Federal, segundo dados do Ministério Público, entre 2003 e 2005, 178 jovens foram mortos enquanto cumpriam medida socioeducativa. A realidade das penitenciárias brasileiras desumaniza as maiorias que não têm poder político ou econômico que lhes assegure gozar de privilégios. Ao invés de reabilitar, funcionam como escolas do crime e promovem a violência.


     A juventude, seja ela negra, indígena, branca, mulher, homem, homo e heterossexual, trabalhadora e desempregada, estudante e sem escola/universidade, é capaz de reverter a lógica da violência, da exclusão étnica e social. Organizarse, ocupar os espaços, movimentar as cidades, o campo, as escolas; reivindicar direitos, propor mudanças estruturais e urgentes, ideológicas e objetivas. Somente a própria juventude é capaz de combater as violências que a exterminam.


     Por acreditar nisso, as Pastorais da Juventude do Brasil (PJB) estão promovendo em todo o país uma grande campanha contra a violência e o extermínio de jovens, em consonância com a Campanha da Fraternidade de 2009, que propõe o debate sobre segurança pública. Todos são convocados a entrar nesta luta em defesa da vida!


Sugestões para desenvolver a campanha


• Trabalhar o conceito de violência em suas diversas formas: física, estrutural e simbólica, alargando o conceito que temos no senso comum;
• Incluir o tema da segurança pública, violência (dentro e fora da escola) e o extermínio de jovens no planejamento escolar, tornando-o eixo transversal;
• Promover seminários, oficinas e palestras durante a campanha contra a violência e extermínio de jovens (2009 e 2010), enfocando principalmente as causas do problema e apresentando possíveis soluções que promovam a cultura de paz;
• Promover atividades lúdico-recreativas com a temática (permitindo que os jovens mostrem livremente sua percepção desta problemática). Exemplo, festival de música, poesia e teatro, gincanas etc.;
• Criar grupos de reflexão sobre a violência, articulando-os a outras redes de discussão e manifestar-se diante de todas as formas de violência com abaixo-assinados, faixas, cartazes, passeatas etc.;
• Incentivar pesquisas sobre os índices de violência no local e, a partir daí, desenvolver a produção de textos que podem ser trabalhados na comunidade;
• Atuar na perspectiva de mídia alternativa para divulgação dos trabalhos de promoção dos direitos e cidadania, contra a violência e a favor da cultura da paz;
• Trabalhar a Semana da Cidadania nas escolas, no mês de abril;
• Incentivar o engajamento em comissões de direitos humanos (onde existem) para acompanhar o tratamento das políticas com relação aos jovens detentos, delinquentes ou não. Onde não existem estas comissões, incentivar sua criação;
• Promover um amplo debate sobre a redução da maioridade penal, fornecendo subsídios diversos à juventude estudantil e a grupos de jovens, potencializando-os na tomada de posições, o que pode ser expandido para a população em geral.
Tábata Silveira,
estudante de Direito, secretária nacional da Pastoral da Juventude Estudantil, PJE. Sapucaia do Sul, RS.
Endereço eletrônico: secretaria@pjebr.org
e
Maria Aparecida de J. Silva,
bacharel em Teologia e articuladora nacional da Pastoral da Juventude do Brasil, PJB. Bonfim, BA.
Endereço eletrônico: pjb@cnbb.org.br


Texto publicado no jornal Mundo Jovem, edição nº 393, fevereiro de 2009, página 11.

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