| Lembro-me de alguns seriados da TV que nos anos 70 disputavam a atenção de crianças e adolescentes. Jaspion, Mulher Maravilha, Mulher Biônica, O homem de seis milhões de dólares, eram alguns dos super-heróis que povoavam nosso imaginário adolescente num tempo em que não havia celulares, internet, Playstation e outros brinquedos eletrônicos e virtuais. Um desses seriados que me impressionava muito era O Homem Invisível — Gemini Man no original em inglês. Naqueles anos, em que a Guerra Fria dividia o mundo, o grande temor era a possibilidade de um confronto atômico entre as grandes potências da terra e suas inimagináveis consequências. Ora, o protagonista desse seriado era um mergulhador dos EUA que, vítima da irradiação provocada pela explosão de uma arma secreta, tornou-se invisível — daí o título da série. Sua estrutura molecular fora seriamente alterada. Ele ficaria invisível para sempre, não fosse a genialidade de uma cientista que desenvolveu uma espécie de “relógio digital”, o qual lhe possibilitava ser visível, facultando-lhe, porém, o direito se tornar invisível durante 15 minutos por dia. Com o dom da invisibilidade ele se tornou agente de segurança para solucionar intrincados casos policiais que agitavam cada capítulo da série, bem ao estilo dos enlatados da época. Acompanhando o noticiário da tragédia que assolou o Rio de Janeiro lembrei-me do super-herói da adolescência. Mais de 250 pessoas já morreram em decorrência das fortes chuvas e deslizamentos dos últimos dias naquele estado, sobretudo na capital e Niterói. Número que se amplia no rescaldo da tragédia, pois ainda há várias pessoas desaparecidas, enterradas sob lama e lixo. Depois da costumeira culpabilização das vítimas por seu próprio sofrimento, são anunciadas medidas emergenciais. Autoridades públicas, como que surpresas pelos números da tragédia, se revezam no anúncio: milhares de famílias serão removidas; suas casas, construídas em áreas de risco por 'irresponsabilidade', demolidas sumariamente. Mais de 200 milhões de reais serão investidos na construção de moradias para os desabrigados, na reconstrução das áreas devastadas e no aluguel social, pequena soma distribuída aos desabrigados para lhes garantir moradia até a conclusão das obras. Mas, o problema da moradia — direito fundamental de todo cidadão — no Rio de Janeiro e no Brasil, não é novo nem desconhecido. A tragédia de hoje é histórica, construída ao longo de décadas de descaso e incúria de governantes e legisladores que, solidários na (ir)responsabilidade no exercício de sua missão de governar, legislar e planejar, deixaram as coisas chegar até esse ponto. No fim, morrem os pobres, o lado frágil do pecaminoso jogo de poder e interesses que caracteriza a cultura neoliberal, gloriosamente vigente nas últimas décadas. Invisibilidade social é o fenômeno pelo qual determinada categoria de pessoas passa a fazer parte da paisagem e se torna invisível aos olhos da sociedade. As causas disso vão da indiferença ao preconceito, por isso a invisibilidade tem várias formas de manifestação: econômica, social, racial, sexual, etária e outras. Por conta desse fenômeno, milhares de pessoas que vivem nas encostas, morros, periferias e bairros distantes da Cidade Maravilhosa e de tantas outras no Brasil, foram invisibilizadas. Só aparecem quando se transformam em números na contabilidade das tragédias anunciadas. Ganham destaque na mídia, visibilidade nos noticiários do horário nobre. E depois somem novamente. O Homem Invisível daquele seriado tinha a vantagem de sumir por 15 minutos e em seguida voltava à visibilidade. Já os pobres invisíveis da sociedade neoliberal aparecem por apenas 15 minutos para, em seguida, desaparecer na invisibilidade do seu cotidiano, no vasto emaranhado de promessas políticas não cumpridas e obras de saneamento não realizadas. “Até quando, Senhor, até quando?” (Sl 6,4b). João Batista Cesário - Pastoral Universitária da PUC-Campinas. |
21 de julho de 2011
Pobres invisíveis
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